segunda-feira, 11 de julho de 2016

O mistério por trás da profundidade dos filmes de Hayao Miyazaki



A arte imita a vida, ou a vida imita a arte? Provavelmente uma mistura dos dois, mas os filmes do diretor japonês Hayao Miyazaki têm uma arte a um grau que a arte e vida simplesmente se juntam e criam essa profundidade e nos emociona como só quem viu conhece.

Mas de onde vem isso? O que tem nos filmes do Miyazaki de diferente do resto dos animes? O que causa esse impacto tão grande?

A maior parte de sua filmografia é dedicada a explorar os muitos pequenos momentos de paz  e contemplação das nossas vidas, como um momento de silêncio e/ou contemplação dentro do carro, no caminho pra algum outro lugar. É isso o que faz seus personagens humanos. Eu gostaria de focar em um aspecto e estilo que faz os filmes de Miyazaki o que nós conhecemos: o Ma.


Muitos filmes são inteiramente focados no plot, em fazer a história rodar o mais rápido possível e mostrar apenas ´o que importa´, em outras palavras, direto ao ponto. Já Miyazaki diz pra parar de pular todo momento ´vão´da história. Em 2002 o entrevistador Roger Ebert descreve esse aspecto único dos filmes de Miyazaki da seguinte forma: ´Em vez de cada movimento estar sendo ditado pela história, as vezes as pessoas se sentam por um momento, ou irão suspirar, ou observar a água corrente em um córrego, ou fazer algo extra, não para avançar a história, mas dar o senso de tempo e lugar e quem eles são.´

Miyazaki então respondeu ´Nós temos uma palavra em japonês para isso, se chama Ma, vazio, e está lá propositalmente. ´ Ele bate palma e então diz ´ O tempo entre as palmas é o Ma, se você tiver ação contínua, sem nenhum espaço para respirar, é apenas negócios, mas se você parar por um momento, a tensão dentro do filme pode crescer em uma dimensão inimaginável. Se você tem apenas tensão constante a 80º você fica entorpecido´

Está cada vez mais raro nós termos momentos de paz e contemplação. Normalmente em filmes esses momentos vêm por alguns milésimos de segundo após o shot final da cena ou mesmo do filme, as vezes nem isso. Miyazaki reconhece que a vida não é assim, ele sempre pensou que contemplar todos os aspectos de nossas ações, o que fizemos, o que estamos fazendo, e o que faremos, é algo que temos que fazer em algum ponto, se não seremos idiotas.Hoje em dia estamos todos conectados, querendou ou não. Sempre mandando mensagens, lendo notícias, enviando e recebendo imagens, vídeos, e então outra imagem. Em suma: A vida nunca para. Miyazaki aprecia a beleza no silêncio e contemplação. Que manter numa cena do horizonte com dois personagens sentados um ao lado do outro é tão importante quanto fazê-los agir e falar. Partes onde filmes frequentemente pulam, ele nos permite dar um passo pra trás e pensar. Você consegue descobrir qual o último filme que você fez isso? No meu caso foi no filme ´Wild´, onde a moça decide sozinha fazer a maior trilha dos EUA pra se encontrar. Mas a grande maioria dos filmes são um misto de ações e falas, onde você nunca descansa. Vamos pegar o último filme de Star Wars como exemplo: é cheio de movimento, diálogo e tensão. Isso não faz dele um filme ruim, mas contrasta fortemente com o sentimento de ´vazio´, o silêncio, a paz e contemplação que Miyazaki evoca.



O próximo filme que você for ver provavelmente vai terminar uma cena pulando logo pro próximo ponto do plot. Talvez depois desse texto você comece a apreciar o tempo que Miyazaki nos dá com o intuito de nos emocionar com sua arte e prefira tomar um tempo para uma pequena contemplação de sua vida. É por isso que nos emociona. É por isso que os filmes de Miyazaki causam tamanha impressão. Talvez nós percebamos algo de diferente nele. Algo que faz dos filmes dos estúdios Ghibli obras simplesmente maravilhosas. Como eles nos fazem ver cada evento sendo ligado ao outro com tamanha naturalidade, em vez de nos fazer sentar numa sala de cinema vendo cenas de ação sendo passadas uma após a outra, em descanso ou, como diz Miyazaki, sem ´vazio´.

Eu com certeza vou começar a prestar mais atenção nisso nos filmes da Ghibli, aproveitar cada pausa que Miyazaki nos dá para contemplar, uma pausa pra pensar, pra respirar. Afinal, a arte sempre vai imitar a vida.

E você? Já experienciou o Ma em alguma outra obra? Um filme, anime, série?

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